3 de maio de 2005

Arquitectura para os dias de hoje

este é um artigo que foi publicado num anterior Santa Ba'rbara, feito no Verao em fase experimental. Fica aqui para a posteridade (ligeiramente retocado).


A ideia de escrever isto veio do post "Tempos Duros 3: o Argumento Hegeliano" do Abrupto . Quando estava em Londres a trabalhar, uma das coisas que mais me marcou foi ler o "The Open Society and its Enemies", do Popper, todas as manhãs e todas as noites, na interminável viagem de autocarro de casa para o escritório e vice-versa. O tal argumento Hegeliano é explicado, dissecado e refutado com a maior clareza (e elegância) e o esforço de ler o calhamaço compensa pelas ferramentas que nos dá para entender o Mundo. Ora o livro fala precisamente dos "perigos do historicismo" para as nossas democracias ocidentais, mas nada em relação à arquitectura - só algum tempo depois (admito a minha incapacidade...) é que consegui juntar as pontas.

Quando dizia aos meus colegas "Vou para Londres trabalhar em arquitectura clássica e tradicional" a resposta, mais coisa menos coisa era "Mas não faz sentido nos dias de hoje fazer esse tipo de coisa!" a que se seguia algum sorriso condescendente ou uma risada incrédula. Um deles veio-me dizer que essa arquitectura era falsa porque era "só cenário", ou só "decoracão".

A verdade é que os projectos em que trabalhei em Londres eram estruturalmente modernos (paredes de betão anti-sísmicas, estrutura de aço revestida a painéis sandwich) e pareciam "antigos" (pelo menos para qualquer modernista), com revestimento de pedra, janelas de madeira, telhados de telha, pérgolas, etc -the whole kit. Mas não é essa discussão que realmente importa (até porque a maior parte dos arquitectos nem está tecnicamente preparada para a ter, quando nem sequer sabe distinguir uma ordem da outra). O argumento que pesa é sempre o dos famigerados dias de hoje.

Um historicista, em traços muito simples, acredita que a História faz o Homem; ele é um seu produto, e ela a sua justificação de existir. O Estado no Poder, correspondendo ao momento actual da História, é assim superior ao Homem - Hegel chamava-lhe "divino" - e este tem que se lhe submeter, à marcha inexorável dos tempos. (com este fraco argumento Hegel pretendia justificar a actuação do seu patrão, o Kaiser Frederico II da Prússia, na sua marcha inexorável de conquista da Europa).

Na História da Arte o argumento é o mesmo - O Homem, sendo um produto da História, e logo dos seus tempos, expressa artisticamente a sua época, e toda a criação artística que não o fizer é desprovida de valor, ou simplesmente "não faz sentido". Este historicismo foi provavelmente o responsável pela criação das "etiquetas" artístico-históricas, que pretendem fazer crer que em determinada época se fazia uma determinada arquitectura, e que há sempre uma tendência para ir em frente (e assim se ignoraram durante muito tempo varios personagens, só porque não estavam alinhados com a corrente do seu tempo - Brasini, Vittone, etc que recentemente coemçaram a ser estudados).

A atitude, digamos, liberal e anti-historicista, declara pelo contrário que a História é um produto do Homem, que ela é feita de avanços e recuos e, pelo menos em relação à arte, nunca de consensos. No séc. XVIII construía-se em gothick em Inglaterra, mas tambem em Itália, e não se tratavam de revivalismos (mais uma expressão tipicamente historicista) mas de obras de arquitectura correntes - há projectos de fachadas, desse periodo, para igrejas construídas dois ou três séculos antes, que tinham que ser acabadas e na altura ninguem se preocupava se "fazia sentido" construir em estilo gótico ou não. Nunca houve verdadeiramente nenhum "estilo" que se possa associar a uma época, ao mesmo tempo e em todo o lado, mas sim fenómenos de sucesso localizados (a medição do valor de uma acção pelos seu sucesso tambem é um argumento hegeliano) que sem dúvida influenciaram outros fenómenos localizados.

Esta “obrigação moral” de espressarmos a nossa época tem as mais funestas consequências - a mercantilização da arte contemporânea e a destruição da homogeneidade dos centros históricos são duas delas. Sou contra o historicismo e acho-o um argumento fraco; sendo contra uma das suas premissas, não sou contra a arquitectura modernista em si - sou um liberal e assim defendo a diversidade de pensamentos e a liberdade criativa de toda gente. Só peço que em nome de uma época contemporânea não castrem a minha.

5 comentários:

Anónimo disse...

Tivemos uma discussão sobre "historicismo" na esplanada daquele bar em frente à alfândega, se a memória não me atraiçoa. Tu e o Nelson representavam os pólos mais opostos, mas eu e o Pedro procurávamos um meio termo que me parece o aspecto mais interessante e importante nesta questão: há realmente valores permanentes na arquitectura, independentemente de modas, etiquetas, estilos ou o que quer que seja. Mas esses valores nunca (ou raramente) estão relacionados com o lado "mais imediato" da arquitectura...têm sim relação com valores abstractos - ordem, composição, estrutura, hierarquia, ritmo, etc. Se todos os grandes arquitectos do século XX evocam estes valores, o Corbusier e o Mies exaltam-nos! São clássicos mas não são nunca historicistas! ("próximos em espírito, eternamente distantes na vida")

"Learned most from old buildings" é uma frase carismática do mestre alemão...e foi uma guia para a minha estadia em Veneza, na qual procurei aprender arquitectura desligado das modas "suiças", "holandesas" ou "catalãs" (que nos seduziram durante todo o curso). Aprendi mais com Palladio do que com Herzog ou Zumthor!!!E já agora, fica o mote para o próximo "cadernos de viagem"...

Abraço!

Anónimo disse...

Caro Alexandre. Foi com muito prazer que li esta sua deambulação pelos meandros de Hegel e do historicismo. (podia ter continuado na época e comparado o devir historico com o Eterno Retorno do Mesmo.. mas não era necessário e o seu texto não peca nem por falta nem por excesso).
Concordo plenamente que a obrigação moral de expressar uma época é e será, de facto, sempre funesta. Contudo não deixa de me intrigar o facto de responder ao argumento 'que pesa' como se este fosse criação fidedigna de uma corja de imbecís (não que a maioria não o seja mas, a maioria...). Há que ressalvar – para o seu próprio interesse e para o interesse da discussão com que presenteia os seus ávidos leitores – que tal argumentação resulta de uma decantação para fins comerciais de uma pergunta original, que usada nas mais diversas situações e perante os mais diversos casos de estudo, pertende que o autor ou defensor da obra em questão (quando esta notoriamente se afasta de patamares correntes – domínio do óbvio) a enquadre dentro de um qualquer fio de pensamento (pode ser também um rizoma ou um produto de associações não-lineares se quiser..) de modo a que se torne relativamente explícita a sua atitude inscritiva no espaço politico em que se insere.
Ou seja, de um modo condescendente deveria informar o seu interlocutor - isto sempre que for confrontado com 'a tal' pergunta - que talvez o que ele quereria dizer é:
"De que modo é que a sua obra se insere ou constroi relações com o tecido politico que a recebe?" (Não confundir tecido nem com o das mãos, nem com a teoria da malha/quadricula ou outros derivativos igualmente redutores da ideia de genius loci).
Posto isto pode então começar por responder, de um modo pausado e sem pressas, mas tendo sempre o cuidado de evitar as implicações politicas do pensamento institucionalizante/inscritivo/simbólico/poder-dependente que o clássico (que não é bem a mesma coisa que tradicional) encerra - mesmo o labirintico barroco ou os carros alegóricos com dragões e faunos do maneirismo – e que, quando confrontadas com a emancipação do indivíduo (não confundir este argumento com o enquadramento hegeliano\marxista) no que respeita às suas conquistas libertárias, e à superação de certos dogmas-sustentáculos do poder, se podem revelar um tanto ou quanto confrangedoras, por exporem, Alexandre, o seu apego a pensamentos aparentemente tanto decifrados e gastos como o que critica, do velho Hegel que no súbdito Marx teve uma das maiores fontes de ópio deste povo.
Mas eu concordo consigo - pois de facto não há tal coisa como um pensamento fora de época (eu próprio no meu intímo creio que a terra é quadrada), e vejo que você é um acérrimo defensor do anti-dogmatismo, e todas as pulsões têm direito ao seu espaço de existência. Sinceramente concordo. Não me perturba que queira fazer arquitectura clássica (até gosto muito de Mies e L.Khan).
O que me perturba, sim, perturba, é o facto de a querer encaixotar no tradicional – que sempre foi muito mais libertário em relação a paranóias de hiper-coerência.
Mas acima de tudo perturba-me a sua incapacidade de relacionar toda o seu amor pela proporção com um discurso sobre os corpos perante os quais ela se virá a proporcionar. Qual deles? Clássico à escala do Homem renascentista perfeitinho, clássico à escala Divina, ou um outro clássico qualquer vindo quiça da sua noção de progresso no conhecimento tão poeticamente defendida quando diz que é agnóstico e não Ateu? ( o mesmo progresso que já demonstrou que a solução clássica já deu o que tinha a dar?).
E se, como diz noutro sítio, se a arquitectura se distinguir do calhau por aquilo que diz, o que pensa estar a dizer hoje? E para quem pensa que está a falar? Sermão às pedrinhas? E se duas pessoas diferentes lerem duas coisas diferentes? E se um geólogo ler mais de um calhau do que de um Piranesi, e então? Será que ele não vai entrar de costas no edificio porque ainda está a olhar para o calhau?
Mas claro você talvez não acredite no ‘público’ e não dependa dele para organizar o seu discurso. Muito bem, pois decerto que o seu discurso é mais fenomenológico que simbólico e intelectual – senão não poderia gostar da ‘escolinha’ e da ‘Escola’ ao memso tempo pois não? Pois assim sendo, o seu discurso é espacial, textural, luminoso, cheio e vazio, pregueado, indefinido, informal, curvo, torto, repetido..... e decerto que também não necessita de um capitel jónico ou até compósito para nada? Ou melhor talvez possa pegar numa coluna toscana atarracadinha e por um capitel coríntio em cima não é? Talvez ainda mais que segmentar frontões possa pôr uma escada na fachada, ou desenhar numa métrica mais irregular que as que Karlheinz Stockhausen usa em musica... não?
E se o que importar não for o que ela quer dizer mas o facto de potenciar que coisas sejam ou não ouvidas, lidas, entendidas, sentidas? E se a arquitectura surgir desse choque entre o que toca e o que é tocado, o que vê e o que é visto? E se a arquitectura não for uma criação apriorística? E se tal fizer sentido para si, o que se segue? Deixa o clássico para trás?

Anónimo disse...

Desculpe, podia reptir?....

Alexandre disse...

hmmm... nao sei muito bem o que dizer. Para ja', obrigado pelo tempo perdido a escrever isto. A verbosidade era um dos métodos mais brilhantemente utilizados por Hegel (e brilhantemente dissecada pelo Popper e pelo Schopenhauer) e assim, através de uma fina ironia, fica apoiado aquilo que escrevi. espero...

Alexandre disse...
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